"Eu gosto de filme chinês, porque você aprende..."
"Fulano é assim... ele deita do seu lado e nem fala com você, não te faz um carinho..."
"Prefiro este absorvente, porque ele dá mais conforto, e você se sente mais segura..."
"Quando você entra em campo e ouve a torcida gritando o seu nome... nossa, você fica até sem fala...!"
As frases acima ocorrem na maior naturalidade, mas esse "você" que aparece em todas elas nem sempre é a pessoa com quem se fala. Trata-se de uma atitude mental que se refere, na verdade, à pessoa que fala, porém imaginando a outra em seu lugar. Entretanto, nem sempre (e não são poucos os casos), o interlocutor caberia no referido contexto.
Faz muito tempo, eu voltava para casa, quando entraram no mesmo ônibus um colega de infância e um amigo dele, voltando do cinema. Cacau (era esse o apelido desse referido colega) estava radiante com o filme que acabara de ver (de luta, kung-fu, essas coisas, provavelmente com Bruce Lee). Quando disse para o amigo "...porque você aprende", estava, obviamente referindo-se a ele mesmo e não ao amigo, o qual talvez até nem fosse muito fã de tais filmes.
Ouvi a segunda frase de uma amiga, e obviamente eu jamais seria o "você" a quem ela se referiu. Ela estava falando de si mesma. Ela é que era casada com o sujeito, e era do lado dela que o cara se deitava, era ela que ele ignorava. Não eu, sai pra lá! Xô! Passa! Mas eu entendi, na hora não dei piti... Isso é assim mesmo.
O terceiro exemplo é bem mais curioso. Imagine a mulher falando aquilo para o marido, o namorado ou mesmo um amigo. Dá pra imaginar o cara menstruado, usando absorvente? Claro que não. Mais do que óbvio que o tal absorvente ofereceria conforto e segurança a ela, não ao seu interlocutor. E dá pra ir mais longe: mesmo que estivesse falando para uma mulher, poderia ser que esta não se encaixasse na situação, ou por não concordar com ela ou por já não mais precisar de absorvente higiênico.
Esta última situação foi proposta por um jogador de futebol, referindo-se à emoção que sentiu quando pela primeira vez pisou o gramado do estádio Mário Filho (Maracanã). Mas já vi um outro referindo-se ao tratamento dispensado a ele mesmo por um bando de torcedores enfurecidos que costumavam invadir o campo e saíam agredindo os jogadores após uma derrota do time, o que costumava acontecer com certa frequência. Ele disse: "Eles invadem o campo, atropelam você, agridem você, pisam em você, cospem em você...", e aquele "você" a quem ele se referia era uma repórter que jamais se tornaria uma jogadora de futebol...
Não... não escrevi isso na intenção de propor qualquer tipo de mudança. É apenas alvo da minha curiosidade, e eu sempre achei isso interessante. Obviamente ninguém vai deixar de falar assim por causa disso.
Devido a esse detalhe da observação, nem faço força para não falar assim. Sempre digo "a pessoa" em vez de "você", mas não recrimino quem o faz.
quarta-feira, 27 de junho de 2007
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